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Simulação da ressonância de Schumann na atmosfera terrestre

O pulso acelerado de Kali Yuga

01/10/2008

Em um artigo, que corre pela Internet, atribuído ao nosso grande teólogo Leonardo Boff ele comenta uma explicação, que também corre pela Internet, para a nossa sensação de que o tempo está passando mais rápido. O que estaria ocorrendo é que a freqüência da “ressonância de Schumann” estaria se acelerando.

O que vem a ser “ressonância de Schumann”? O físico alemão W.O. Schumann se dedicava a medir as oscilações do campo eletromagnético terrestre. Em 1952, ele descobriu que o campo eletromagnético da Terra apresentava uma freqüência dominante de cerca de 7,8 ciclos por segundo (7,8 hertz), após batizada de “ressonância de Schumann”.

Segundo a alarmante “notícia” divulgada pela Internet, depois de por “milhares de anos” a “ressonância de Schumann” ter permanecido constante em 7,83 herz (quem estava lá há milhares de anos fazendo esta medida? e com tamanha precisão?!), ela, a partir dos anos 80 e de forma mais acentuada a partir dos anos 90, teria disparado para 11 e para 13 hertz, coincidindo com a escalada dos enormes desequilíbrios naturais e sociais desde então. Assim, nas palavras de Leonardo Boff, “a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória, mas teria base real neste transtorno da ressonância Schumann”.

Porém isso não é verdade. A ressonância de Schumann é bem estável, variando cerca de 0,3 hertz em torno de 7,8 hertz. O gráfico abaixo demonstra isto. São medidas realizadas em uma estação de monitoramento das oscilações do campo eletromagnético terrestre, situada em Arrival Heights, na Antártida. Nada da freqüência disparar para 13 hertz nos anos 90. E nem no começo do século XXI. As variações (pequenas) são devidas principalmente aos ciclos diurno (dia e noite) e sazonal (verão-inverno).

Variabilidade da ressonância de Schumann em Arrival Heights, Antártida.

A origem da ressonância de Schumann explica a sua estabilidade. Ela ocorre entre a superfície terrestre e a base da ionosfera a cerca de 100 km de altura. Ambas são condutoras e formam uma espécie de cavidade ressonante para a propagação de ondas eletromagnéticas. Podemos mesmo fazer uma conta simples para calcular a ressonância de Schumann. A freqüência fundamental é dada pelo tempo no qual a onda eletromagnética, na velocidade da luz, dá a volta na Terra. Como a velocidade da luz é 300 000 km/s e a circunferência da Terra é 40 000 km, a freqüência fundamental é da ordem de:

300 000 km/s
----------------- = 7,5 ciclos por segundo,
40 000 km

o que é bem próximo do valor observado de 7,8 hertz.

Esta beleza pitagórica de uma conta simples dando um valor tão próximo daquele determinado por elaborados meios de observação, nos fala do quanto a natureza é capaz de manter o seu equilíbrio por meio da sua música, que é ouvida apesar do barulho do homem. De fato, é esta música, que é tocada no mesmo modo, que garante a estabilidade cósmica. Do ponto de vista do homem, parece que ele está destruindo a natureza toda. Do ponto de vista da natureza, o homem está destruindo uma porção ínfima dela, que, coincidentemente, é aquela que ela habita.

Afinal, a ressonância de Schumann talvez possa suscitar algumas reflexões. Em primeiro lugar, relação global-local. A ressonância de Schumann é um fenômeno global que pode ser medido em ponto qualquer da superfície terrestre. Em segundo lugar, qual é o papel do homem como “perturbador”? Além dos ciclo diurnos e sazonal, há outros “fatores menores” que influenciam a variabilidade da ressonância de Schumann,. Por exemplo, o ciclo de 11 anos das manchas solares. Um traço importante da ressonância de Schumann é que ela pode ser usada para caracterizar variações da temperatura global. E aí a atuação humana teria a sua marca, no nível de poucos por cento nesta vibração da natureza, que teima em manter o equilíbrio.

Quanto à aceleração do tempo, temos que recorrer a cosmologias mais poderosas do que aquela alimentada pela ressonância descoberta por um físico alemão. A teoria hindu dos ciclos cósmicos diz que o tempo se desenvolve em sucessivas idades (Yugas) a partir de um estado de perfeição inicial. Cada ciclo é caracterizado não por uma ascenção, clímax e declínio, como estamos acostumados a pensar, mas sim por uma constante queda. Os ciclos transcorrem de acordo com três leis: 1) o movimento é de queda; 2) a queda é acelerada; 3) a queda termina de um modo abrupto, onde se passa em um instante para o estado de perfeição que dá início ao próximo ciclo. O início do ciclo é o Krita Yuga (a idade perfeita), quando a lei (Dharma) está inteira. A Krita Yuga escorrega suavemente para a Treta Yuga, quando o Dharma já foi parcialmente desgastado para três quartos do Dharma original (daí “Treta” com referência a três). Na idade seguinte, a queda já está rápida, é o Dvapara Yuga, onde apenas temos dois (Dvapara) quartos do Dharma. A Yuga em que vivemos é a Kali Yuga, em queda vertiginosa e regida pela tenebrosa deusa Kali. A aceleração do tempo é devido não à ressonância de Schumann mas sim à avassaladora atividade da deusa Kali que arrasta o Universo consigo em seu mergulho!