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Para Além da Tolerância

11/01/2013

A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo - a uma nação e à Terra - constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar.

Carta da Transdisciplinaridade, Artigo 8

Se formos a Ravena, a Basílica de San Vitale é um "must see" da cidade, que se autodenomina a Capital do Mosaico. Lá encontramos um mosaico, representando Abraão servindo três anjos sentados a uma mesa. O bom Abraão acolhe três estrangeiros e lhes oferece uma refeição sem se dar conta de que são três anjos. Ele lhes apresenta um prato com um assado, o arquetípico cordeiro, antigo como a sua Ur e novo como o Cristo que ainda não havia vindo. E os pães redondos que os anjos comem estão divididos em quatro partes, assim como o Jardim de Éden, é quadripartido pelos quatro rios do Paraíso. Os três estrangeiros anunciam que Sara, já idosa e considerada estéril, irá ter um filho. O mosaico mostra Sara, a um lado, sorrindo de tão absurda, embora gentil, afirmação. Ao final, os estrangeiros se revelam anjos, e, como costuma ocorrer na esfera do Sagrado, o absurdo se torna real, e, nove meses depois, Sara dá a luz Isaac, o nascimento que constitui o momento inaugural do povo hebráico.

Esse episódio, a Filoxenia de Abraão (Gen 18. 1-15), tem uma grande presença no Cristianismo oriental, onde há muitas igrejas da Filoxenia. No Ocidente, esta tradição iconográfica é em geral ignorada e só aparece em locais marcados pela influência da tradição bizantina, como em São Vitale em Ravena, San Marco em Veneza e Santa Maria Maggiore em Roma. Desde os dias do Cristianismo primitivo, encontramos a interpretação de que os três anjos representariam uma prefiguração da Doutrina da Santíssima Trindade. Esta exegese fundamenta o Trindade (Troitsa), como é conhecido o famoso ícone de Andrey Rublev (c.1360 –1430), mas cujo nome original era Filoxenia. Em um outro nível, a imagem da Filoxenia concentra nossa consciência na possibilidade da paz profunda, na unidade da humanidade por trás de todas suas divisões, e no encontro do sagrado com o humano.

A Filoxenia é um tema recorrente em muitos povos, tempos e locais. A comunidade hindú o formulou como atithidevo bhava – o Hóspede é Deus. Encontramo-no na história de Baucis e Filemon, contada por Ovídio nas Metamorfoses. O velho e piedoso Filemon e sua anciã esposos acolhem, sem saberem, Júpiter e Mercúrio, disfarçados de exaustos viajantes. Oferecem-lhes toda a sua generosidade frugal, azeitonas e queijo de cabra, vinho novo servido em copos de madeira, e um leito rústico de algas. Os hóspedes se revelam deuses e transformam o casebre do casal em um templo, que os anciãos guardam até a sua morte simultânea. Aliás, morrer juntos e ao mesmo tempo foi o desejo que solicitaram que Júpiter lhes concedesse. Assim, quando morreram, foram metamorfoseados em duas árvores enlaçadas por um secular abraço. É urgente que a palavra filoxenia seja introduzida no nosso vocabulário corrente. Infelizmente, nos dias de hoje, outra palavra, xenofobia, o "ódio ao estrangeiro" nos é muito familiar, assim como a realidade que ela representa. Uma resposta à ubiqüidade da xenofobia pode ser dada por uma ética construída sobre o fundamento de que a filoxenia, a acolhida ao estrangeiro, é inerente à natureza humana. É ela que é o protótipo, do qual a imagem invertida é a xenofobia, tão perigosa em todas as épocas, mas em especial no mundo moderno. Com os meios de destruição de corpos – as armas cada vez mais eficazes – e de consciências – a mídia potencialmente cada vez mais mentirosa e banalizadora – dos quais dispomos, a xenofobia de hoje torna-se mais e mais letal. Insiste-se muito em tolerância, mas esta parece insuficiente na situação atual. Necessitamos algo ainda mais radical, primordial mesmo. Necessitamos da filoxenia, ou acolhimento ativo e total, que abre o olho do coração para a natureza sagrada da pessoa a nossa frente. A filoxenia implica, portanto, o desenvolvimento da percepção da presença do sagrado, continuamente exercitada no nosso dia a dia, com respeito às pessoas que encontramos, ao mundo em nossa volta e ao nosso universo interior. Além disso, enquanto a tolerância é passiva, a filoxenia é recepção ativa, é atenta à chegada do outro e faz o tropos, o voltar-se àquele que se aproxima. Abraão não espera que os anjos batam à sua porta. Quando vê os estranhos se aproximando, e os vê empoeirados e cansados, corre até eles e os convida a receber a hospitalidade de sua tenda.

Por fim, filoxenia anda de mãos dadas com a filadélfia, que é a constituição de uma comunidade em que todos se amam com irmãos. A filadélfia ganha o seu alcance maior apenas com a filoxenia, pois sem ela, a filadélfia se realizaria apenas com aquele grupo de pessoas que são assinalados com a marca do Mesmo, e, de novo, o Outro seria excluído, e o demônio da xenofobia novamente se esgueiraria entre nós. Talvez pudéssemos sonhar com em um estágio além da cidadania, que seria a filadélfia. Quando falamos de cidadania planetária, parece que o termo cidadania, assim como o tolerância não comportam todo o alcance implicado pela escala planetária. Esta mudança de escala aparentemente quantitativa acarreta uma transmutação de qualidades e valores. Como no nosso mundo de horizontes em superposição, podemos falar que existe algo inteiramente estranho a nós, que Ocidente e Oriente estão segregados? A filoxenia estende a filadélfia ao planeta como um todo. Mais do que uma cidadania planetária, uma amorosa fraternidade planetária.