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Simone Giovine

Grande Encontro

29/03/2017

Por Valeria Sanchez* 

Este documento é um relato compartilhado, fruto de vivências ancoradas no Encontro de Culturas do Mundo e Encontro Multiétnico, no Espaço Cultural Tangará Mirim, Imbassaí, Bahia, no período de 20 a 29 de janeiro deste ano. Durante quase 10 dias convivemos imersos... Tivemos a oportunidade de abrir as portas dos sentidos, assim como as do coração, para receber a riqueza de um ‘outro saber’.

O propósito deste Encontro nasceu, tomou forma e cresceu a partir da ‘necessidade’ de expandir a consciência da realidade sócio cultural brasileira e mundial, aliada à sensibilidade empreendedora e artística de seus idealizadores: Glaucia Rodrigues e Juliano Basso, assim como a capacidade e comprometimento de suas equipes. Participantes, lideranças, antropólogos, especialistas, músicos –  tudo junto e misturado resultou num recorte de interação transcultural ímpar. 

Os depoimentos aqui recolhidos contemplam a primeira parte do evento; relatam algumas experiências vivenciadas na intersecção com a cultura ancestral indígena brasileira, representada pelas etnias Guarani Mbya (SC), Guarani Kaiowá (MT), Fulni-ô (PE), Kayapó Mebengôkre (PA), Povos do Alto Xingu (MT), Tupinambá (BA).  

“Os índios como guardiões da floresta e a floresta como guardiã da Vida no planeta”, foi a premissa plantada por Glaucia, no toque inicial da jornada...  

- Juliano, idealizador e produtor do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e da Aldeia Multiétnica (GO), nos contou que no Brasil a população indígena é composta por 305 povos com língua e cultura próprias, totalizando cerca de 1 milhão de pessoas, sendo que nem todos vivem em aldeias. “Estamos vivendo tempos muito difíceis e a proposta destes encontros é fortalecer os povos indígenas e ao mesmo tempo criar novas possibilidades para sua sustentação.”  

A ameaça às nossas florestas esta diretamente ligada aos ataques e penas impostas aos indígenas, os ‘guardiões da terra’. Este denominador é comungado por todas as etnias.  A pedagoga Maria Amélia Pereira, Péo, nos trouxe reflexões sobre as tradições ancestrais como modelo “Da presença de uma vida Una com a Natureza” segundo ela: “Os GESTOS DESSA unidade (...) cria um campo magnético de sustentação deste Planeta, sem o qual estamos todos fadados a uma possível extinção.”

- A antropóloga Betty Mindlin, escreveu: “Cada povo fez uma demonstração de cantos e danças. Os Alto Xinguanos, os Guarani, os Fulni-ô, os Tupinambá, os Kayapó sucediam-se, com um vigor extraordinário, com corpos pintados, com adornos elaborados, homens, mulheres e crianças em tal embalo que os participantes/espectadores logo queriam aderir às rodas. Não se poderia dizer que um povo, mesmo os Xinguanos Iawalapiti e alguns representantes de outros povos da T.I. Xingu, ou os corajosos Kayapó fossem mais tradicionais que os povos nordestinos ou os Guarani místicos e reflexivos com centenas de anos de contato. Todos eram de uma beleza espantosa, inventos de enfeites, plumas, colares, pinturas; os ritmos, passos, ímpeto nos movimentos transportavam a um tempo inesperado, dissolvendo as marteladas urbanas que trazíamos conosco. Quando escureceu, eu me senti, surpresa, como se estivesse nas primeiras noites na aldeia dos Paiter Suruí de Rondônia, recém saídos da floresta, em 1979. Quinhentos e tantos anos de massacres e invasões pareciam não ter atingido a alma artística desses Primeiros Povos...”

  Nessa configuração, recolhemos alguns depoimentos de participantes:

- “O Céu e a Terra se uniram nestes dias. Celebração e alegria, mas também luto e tristeza aterraram e fizeram morada em nossos corações. Compartilhamos depoimentos, cantamos juntos nas rodas sob a força dos cachimbos, na paz... Os ritmos  foram marcados,  acertamos os passos nos compassos das danças compartilhadas. De mãos dadas celebramos mas tambem nos recolhemos em meditação no precioso resgate do guarani temazcal. No útero da mãe-terra, aquietamos e pudemos ouvir bater o Coração do grande Espírito: renascemos mais vívidos e puros. Ouvimos segredos ao pé do fogo, as diferenças foram comemoradas e nos reconectamos irmanados.”

- “A alegria, a tristeza, a força, a fragilidade, mas principalmente a luta deles, se tornou minha também.”

- “O grande privilégio que recebemos neste Encontro, foi a ‘graça’ da convivência, e mesmo entre os novos amigos indígenas, os que não falavam o português, deixaram marcas profundas, tanto na pele de nossos corpos quanto na profundeza de nossas almas... Para além do tempo deste Encontro, estamos agora conectados.” 

- “Fiz descobertas, refiz ‘ligações’ direta ou indiretamente com os meus ancestrais; Constatei que eu sou eles, através da convivência tive a certeza que somo UM, pulsando e vivendo na grande Oca que é o Planeta Terra.”

 “A imersão foi intensa: tudo junto e misturado, do sutil mundo dos mitos cosmogônicos ao solo profundo das raízes bem trançadas. Dançamos,  cantamos, partilhamos de histórias, contos e ritos. Com esses novos amigos inauguramos um novo jeito de viver...”

- “A co-responsabilidade é o legado que me nutre e convoca.”

 - “Vivemos em imersão os princípios fundantes deste Brasil.  Foi uma jornada intensiva e inesquecível:  Reconquistei um novo ‘sentido’ de SER e Estar brasileiro; sou mestiço, vira-lata, misturado e meio a meio... Sinto assim que me tornei mais INTEIRO.” 

 - “Como descrever?  Um processo de semeaduras e sementeiras; de plantio e podas, regado à  rezas...  Das ideias às juremas, medicinas da floresta,  alimentos bem plantados, num despertar do solo sagrado da memória de nossos gens-avós.”

“Sou mais eu, sendo Toda Tribo.”

- “Resistir para Existir!!!” Este é o traço imperativo na rotina dos momentos registrados pelo fotógrafo e ativista Rogério Ferrari“...A realidade de violência sob a qual vivem os povos indígenas brasileiros, (...) faz com que o presente se confunda com o passado...” Este é um chamado da exposição de fotografia intitulada: “Imagem de quando a coragem recusa a humilhação, Território Guarani Kaiowá, 2015-2016.” Rogério nos conta que essas trajetórias trazem nas sagas de suas vidas uma equivalência com os refugiados espalhados pelos campos na Palestina e também em outras inúmeras partes do mundo, sendo que a diferença é que aqui os agressores têm a face do latifúndio...   Testemunhos de lideranças complementam como causas, o agronegócio, a pecuária, a mineração... entre outros inimigos, estão os aliados cegos e retrógrados dos ‘poderes’ políticos- econômicos.

 Betty Mindlin reitera: “...Têm resistido à Polícia Federal, à Polícia Militar, ao Exército, aos fazendeiros, aos invasores de todo tipo. Morrem, mas não cedem. Todos, assim como os expoentes dos outros povos, mostraram ser grandes personagens, figuras ímpares (...) Devemos questionar os grandes programas e objetivos econômicos hegemônicos. A terra indígena, anterior ao Estado brasileiro é um direito coletivo de povos, terra ora pertencente à União para usufruto de seus habitantes, como garante a Constituição Federal de 1988, desafia a noção individual ou empresarial de propriedade fundiária e de patrimônio, desmascara a alta concentração de renda brasileira.” 

As notícias nos deixaram à par de impactos, violência, ameaças e assassinatos. Constatamos que as principais questões, assim como causas, são praticamente as mesmas da matiz colonialista, intricada à política predatória e perversa que impera desde o Brasil colonial... Violações, ataques, genocídios se sobrepõem, num ciclo  interminável... Direitos adquiridos estão sendo desconsiderados no novo governo. Terras demarcadas continuam sob ameaça e são quotidianamente atacadas.

Sentimos a força e a responsabilidade, tanto sobre a riqueza das nossas florestas, quanto pela dizimação dos solos desertificados em pastos e/ou monoculturas dos agro-negócios transgênicos regados a agrotóxicos, aos solos saqueados e envenenados nos processos extrativistas de mineração. Das queimadas intermináveis, aos alagados nas represas que consomem realidades inteiras no desvio de cursos e biomas, rios e extinção de espécies.  Da adulteração dos montes belos, enfeiados... moribundos e/ou extintos; são duras as penas impostas aos nossos guardiões, ao território deste país. Tanto os povos tradicionais, quanto a fauna, flora e minérios, são tomados como “meras mercadorias”, negociados de forma predatória. 

- “No conjunto da obra, deste grande Encontro, constato que crescemos para além das fronteiras dos nossos quintais. Ocupamos territórios invadidos e desiguais. Formamos times indivisos nas diferenças.  Entoamos cânticos e juntos  velamos assim como nos comprometemos a cuidar desta terra-povo-ancestral.”

- “As relações se restabeleceram e se consolidaram a partir de uma qualidade humana ímpar e nos fez a par, em parcerias irmanadas.”

O antropólogo Edgar Assis Carvalho, nos lembrou, numa conversa intimista dentro da grande Oca (especialmente construída em 8 dias pelo “arquiteto e engenheiro índio Anoiá, da etnia Kamaiurá, e seus parentes,) a fala do Papa Francisco: “A Terra como a Casa Comum”, apresentando Baumann para os Dominicanos, e contrapôs Walter Benjamin, 1921, “O Capitalismo como Religião.”

Flagrados os desvarios, estamos unindo nossas forças-tarefas para reagir em compromissos e liga-ações, na direção de um mundo melhor. O tempo urge e as bênçãos recebidas em rituais fertilizaram novos planos que vem de encontro com os propósitos da Campanha da Fraternidade, 2017: “Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”, na direção de preservar, proteger, ‘Reconstruir e renovar as faces da terra...’ 

- Os Fulni-ô, Kayapó, Alto Xinguano, Tupinambá, Guarani, entre outros, atravessam tempos crônicos de dizimações, doenças, além  de ameaças constantes em seus territórios:  “Mesmo as terras já demarcadas estão sob a ameaça do estado que NÃO garante a soberania de nossas terras,”  denunciaram  lideranças indígenas, alguns sob ameaças de morte.

      O coordenador geral da associação indígena Floresta Protegida,  o biólogo Adriano Jerozolinski (Pingo), falou da situação dos Kayapós, em 17 aldeias abarcando 3000 pessoas, dos conflitos e dos graves perigos que  os agronegócios como o MATOPIBA *1,  tem desencadeado e ainda irá desencadear... ‘O que se esconde por detrás das palavras é a exploração dos solos e das águas para o agronegócio; exige o desmatamento de grandes áreas, por isso sequestram a terra dos povos e comunidades tradicionais, compactam os solos, modificam sua química e consequentemente a sua vegetação, além de alterar o regime das águas, trazendo efeitos danosos e irreversíveis a todo território brasileiro.*2  Podemos dizer que nestes dias fomos todos arados...  As feridas abertas sangraram e sangram ainda, sentimos em nossos corpos as veias ressequidas dos rios que agonizam assoreados, sem cílios nas matas. As aguas coagulam envenenadas em condensadas poças. A contaminação por metais pesados, na extração de minérios, é responsável pela mortandade e adoecimento da vida nas populações ribeirinhas.  

*1 O Governo Federal, pressionado pelo agronegócio, em maio de 2015, instituiu o Decreto 8447 que constituía o território chamado “MATOPIBA” e está compreendido por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (...)

*2  Artigo 110 do código de biomas brasileiros editado pela Campanha da Fraternidade, 2017: “(...) Este modelo de desenvolvimento em curso no Brasil tem sido questionado no mundo inteiro, por deixar atrás de si um rastro de territórios desertificados.” 

  Também as roças do Xingu se encontram sob ataques de pragas, pulgões - (antes desconhecidos por eles) por causa dos bombardeios de agrotóxicos na lavoura de monocultura vizinha... os insetos predadores estão migrando para suas terras: – Armadilhadas ‘pseudo-econômicas’ dizimam em desatino biomas e populações inteiras; a isso chamamos Civilização (.?!)

- “Urgência, imanência, indig-nação, comprometimento, solidariedade, coletivo, ação política, raiz, religação, transcendência, espiritualidade, fecundidade...” 

- “Estamos voltando para as nossas cidades e estados muito impactados; mais conscientes, unos e compromissados,  recebemos o legado de informar para GERMINAR... um amanhã mais responsável e promissor.”

- “Vivemos uma imersão no tempo presente,  sem minutos, ou horas... O tempo do Sol, da Lua e Estrelas, o tempo do ‘sempre no agora’! Leveza e força entrelaçados. Os pés marcaram no chão o compasso, no mesmo ritmo, num só pulsar de coração. Em roda unimos a dimensão dos ciclos e mundos interativos indivisos e infinitos...  A vida não é reta, mas humilde se curva em espirais – e não se expira jamais, se renova, se recria. Depois dessa comum-união, resta a pureza que renasceu como criança, nas terras de Imbassaí, em rituais de passagem fomos trans-formados.”  

-“Re-nascemos nestes dias, com a responsabilidade e legado dos anciãos; Somos todos filhos legítimos das Tribos Brasileiras.”

Foi pelas vias da convivência que pudemos ampliar a consciência e contemplar este Homem original que também somos nós, partícipes sintonizado no reino interdependente da Terra-Mãe. Convidados e participantes corroboraram para a abertura de um OUTRO espaço-mundo, uma nova estação do tempo, urge e nos impele à inovação. Foi nesse ‘Lugar e território sagrado’ que aterramos e ascendemos, cosmo-unido-indivisos, sem fronteiras: Juntos em-lutamos mas também celebramos as possibilidades do devir...

Se no passado a “História do Brasil” foi mal contada, omitiu e inverteu fatos em versões colonialistas.  Na atualidade a “mídia contemporânea” esconde e/ou manipula informações sobre as emergentes causas de genocídios ligados às nações indígenas. Minimizam, amenizam e até justificam crimes... Assim foi e tem sido, até o presente !!! Contamos com as mídias alternativas e nossa criativa forma de multiplicar e replicar a luta! Por outro lado nossos povos avós e irmãos indígenas persistem, clamam e nos convocam à unir-se a eles nesta ‘causa’ que é também de todos nós. A urgência é a vida Viva: do ciclo das aguas à sistêmica teia da vida!  Com determinação, tenacidade e também com sua forma ‘Gentil’ de ser, esses guerreiros nos ensinaram muito nesses dias...

Artes, nuances, tons, musica, maracás, contos, cantos foram retratados em símbolos, mitos e arquétipos, reencantados em cerâmicas, bambus,  esteiras, redes, adornos, instrumentos, ervas e medicinas da floresta, que alegraram, ambientaram e também intermediaram como “moedas de troca”, para a sobrevivência de suas famílias e cultura. Compromissados estamos, cada um a seu modo. Aprendemos com a maestria de cada etnia o poder do silêncio, da palavra necessária, e também dos gritos em ‘coro’ que clamam em resiliência. 

Voltamos para casa plenos de humanidade; replicando Stefan,  nos Direitos Humanos, lembrado por Edgar Assis: “O que deve prevalecer agora é a indignação. A indiferença é o mal.” Finalizamos com Betty: “Os princípios mais básicos de justiça social e humanidade tocaram corações, uma semente a ser ampliada, roça aberta pelos protagonistas indígenas que expuseram com clareza quem são e o que defendem.” 

Selamos com a incumbência do amor RESPONSÁVEL: Somos Um.

       *  Valeria Sanchez Silva é Psicóloga Clínica de orientação junguiana, especialista em Cinesiologia, escritora e mestre em Psicanálise e Formações de Cultura - PUCSP. Membro fundadora da ONG Centro de Tradição Cigana.