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Leonil Junior

Sincretismo e Convívio no Brasil por Paulo Dias

03/02/2017

Boa tarde meu povo que aqui estão
Dá licença pra este menestrel
Faço vênia tirando o meu chapéu
Pr'essa gente que tem bom coração
Para mim é uma grande emoção
Cantar versos na mesa de palestra
Vou tentar não fazer rima canhestra
E deixar a plateia bem contente
Ve-se logo que são inteligentes
E não querem que o bardo estrague a festa

Toda vida vivi em desatino
Mas na rua encontrei a minha musa
Que bordou de dourado minha blusa
E mudou para sempre meu destino
Só arrisco no canto nordestino
Por que em jongo na roda sou formado
E topar com meu ponto é arriscado
Minha escola tem sido a ingoma
Na fogueira tirei o meu diploma
Goromenta comigo é embaçado

Vou saudar nesta hora a minha amiga
Que organiza este evento tão bacana
Alma nobre, a Glaucia sempre chama
Todo povo na roda da cantiga
Todo ano reúne e dá liga
Pra um mundo de gente original
No caminho do sopro ancestral
Que anima o corpo em movimento
Deus que traga saúde e muito alento
Longa vida a projeto tão vital

 Vou também dar um oi para o colega
E irmão não no sangue mais na arte
Juliano é seu nome, e em toda parte
Ele anda co'o povo e não sossega
É guerreiro de Jorge, e o bicho pega
Quando põe o Brasil no seu terreiro
Ensinando pra este mundo inteiro
O valor da cultura popular
Esse cabra é danado pra mostrar
As belezas do povo brasileiro

Doutro lado, a Péo, é grande mestra
Que desvenda a fala brasileira
Em folias e cantos, brincadeiras
Nas cidades, nos campos e florestas
Nessa linda cultura que é da festa
Ela busca sentidos com carinho
Nos convida a todos pro caminho
A trilharmos o chão do aprendizado
Todo ser já floresce informado
Do chamego da rosa e o do espinho 

Também vou saravar o sanfoneiro
Gente grande e nobre criatura
Gabriel, o arcanjo da cultura
Tem na alma o canto brasileiro
Co'a sanfona virou o mundo inteiro
Foi tocar na Bahia e na Guiné
Não conheço lugar que não pôs pé
Ele foi pra tocar até na China
Quase fica por uma menina
Mas bateu a saudade aqui do mé

Vou falar é do povo brasileiro
Marca forte de várias etnias
Com encontros de paz e rebeldia
Molda o ano janeiro a janeiro
Pé de dança, fulô, água de cheiro
Tudo em festas, cortejos encantados
Tudo em casas e ruas ubicados
Para mór de dar loa ao sacramento
União desse povo, sentimento
Integrando a Vida ao Sagrado 

Os Cristãos e os Mouros em batalhas
Marinheiros da Nau Catarineta
Cantadores jongueiros e retretas
Foliões, batuqueiros e mortalhas
Baianás e congueiros de toalha
Mina jeje nagô linha da mata
Moçambique de nego de precata
É Nação Africana, é Irmandade
Cada um compartilha uma verdade
Que chegou por avós de longa data 

Nesta casa que estamos reunindo
Sinto o vento das forças ancestrais
Os pilares ternários colossais
E a penunbra instaurando um sono lindo
É na rede que o sonho mais bonito
Ilumina a alma do xamã
Intepreta o hoje e o amanhã
Os indígenas são nossos avós
Neste templo ressoa a sua voz
Pra guiar todos nós em seu elan

Foi o pai de Anuyá quem fez aqui
Essa obra de bela arquitetura
Lumiar expoente da cultura
Vem do povo dos Yawalapití
Vejo aqui nessa roda os Guarani
Tem também Kayapó Mebengokré
Gente sábia e feliz com o axé
Nós ficamos marcado co'a sua tinta
Bem bonitos pra toda roda vinda
Espalhar alegria a quem quiser
Construção tradição parece pura
Por seu sólido e firme assentamento
Nos quedamos surpresos um momento
Mas por fim encontramos a tintura
O espaço agora é transcultura
A palestra é dentro aqui da oca
A palavra que canta e que toca
Que aprendemos com nossos ancestrais
A seguir com os novos rituais
E a pura mistura recoloca 

Sincretismo é palavra especial
Que existe na língua portuguesa
Para uns ela é cheia de beleza
Para outros, encarnação do mal
O assunto não pode ser banal
Muitos são os sentidos da cultura
Muitas são as facetas da mistura
Sincretismo nasceu foi lá na Grécia
Os cretenses unidos, peripécias
E a história bagunça a coisa pura

Sincretismo é estarmos todos juntos
Cada um portador de uma verdade
Cada um vai viver a realidade
De acordo com seu estar no mundo
Mas as mentes e corpos em conjunto
Remodelam o corpo do vivido
Incorporam oral e o escrito
E as Forças Divinas que atuam
Nas diversas Nações que se cultuam
Andam juntas por ser bem mais bonito

Sincretismo não é mascaramento
Pelo peso do jugo colonial
O Divino e Olorum tem peso igual
Vou na missa e na gira em movimento
Quanto mais for o fortalecimento
Que nos traz cada flor desse rincão
Mais terá nossa vida direção
Para todos se verem irmanados
Para quê repisar o separado
Misturado é o bom, o puro não!

Porque a realidade  dura e bela
Se constrói com os povos que convivem
E a memória de um grupo em vertigem
Incorpora lembranças fora dela
E aberta está essa janela
Completando as lacunas do esquecido
No tear conturbado do vivido
Muitos fios se combinam na urdidura
Desse modo é tecida a cultura
Nosso manto é multicolorido

Mas também neste mundo de meu Deus
Desde quando esse mundo começou
Se o espaço de uns se encurtou
Logo querem quintais que não são seus
E se os gregos louvavam o seu Zeus
Era Jupiter o deus de quem mandava
Os romanos fazendo gente escrava
Procuravam a todos dominar
Mas as almas não pôde assujeitar
Assim Creta ficou sincretizada
Desse jeito também 'qui no Brasil
Desde o tempo da colonização
A Europa foi mais que um vilão
Dominando na força e no fusil
Tribos índias enfrentam morte vil
Mas não deixam de lado a sua herança
Sua língua, anseios, esperanças
Esse povo renasce com vigor
Ele tem que ser nosso professor
Para a vida num mundo com bonança

Também negros da África lutaram
Contra as malhas cruéis do escravismo
E juntaram as forças, comunismo
E mais fortes as dores suplantaram
Co'alegria seus cantos entoaram
Diáspórico mundo construindo
Nos desvão do sistema evoluindo
Como Porta-Bandeira e Mestre-Sala
Na avenida que é campo de batalha
Com rajadas de ritmos retinindo

Desse jeito a ideologia
Seleciona o puro na mistura
Reconstrói a herança da cultura
Com orgulho do Ser e a nostalgia
De uma origem que vaza o dia-a-dia
Conquistando convívio cidadão
Transformando o ferro em canção
E a injustiça em motor de mudança
E aqui essa coisa que já dança
É esperança de nossa união !

** Paulo Dias é pianista, percussionista e etnomusicólogo - UNICAMP/SP, fundador e diretor da Associação Cultural Cachuera